quinta-feira, 17 de julho de 2014

[Revisitando Stephen King] Carrie - A Estranha


Quando fiz meu primeiro ano de colegial, lá em 2004 (ai minhas costas), a biblioteca pública de Jundiaí ficava bem ao lado de onde eu estudava, no centro da cidade, em uma casona antiga, apertada e empoeirada. Estava descobrindo a literatura de terror graças a um presente de aniversário da minha avó: um volume da Ediouro contendo nada mais nada menos que Frankenstein, Drácula e O Médico e o Monstro em um só lugar! Nos meus dias de ensino médio - ou naquele primeiro ano pelo menos - gostava de ir me aventurar pela prateleira de terror da biblioteca. Dentre todos os autores que ali estavam, um chamou minha atenção.

Stephen King.







O nome dele estava em 70% do acervo de livros de terror, e assim é até hoje. Já sabia de seu apelido de Mestre do Terror e já tinha visto muitos filmes baseados em suas obras, mas nunca havia lido nada dele. Isso mudou lá em 2004, quando decidi iniciar o meu cadastro na biblioteca com Carrie - A Estranha.

Carrie foi o primeiro livro publicado do titio King lá no ano de 1974, que o considerou um lixo, a ponto de arremessar o manuscrito na lata mais próxima de sua casa. Sua esposa, Tabitha, o encorajou a terminar o livro, e o resto é história. Inicialmente, não foi um sucesso, ficando restrito à clubes de livros e aficionados por terror. Quando do lançamento de sua adaptação cinematográfica, em 1976, Carrie finalmente vendeu o que a editora esperava; sem mencionar o sucesso do filme em si., que hoje é considerado um grande clássico do terror, deixando a imagem da atriz Sissy Spacek coberta de sangue no seu vestido de formatura firmada na mente dos espectadores que tentavam dormir à noite após assistir ao filme.



O livro de estreia de King lida com um tema bastante delicado, que é o despertar da feminilidade. Quando a menina percebe mudanças em seu corpo e interesses também. O enredo literalmente começa e termina com banhos de sangue: seja Carrie menstruada no vestiário de sua escola, ou na fatídica cena em que leva um bale de sangue no clímax da história. Ambos são momentos de catarse para a protagonista; no primeiro incidente, Carrie acorda para o próprio corpo, no segundo, ela acorda os seus dons. Ou os acentua, já que durante o livro todo ela explora as possibilidades de sua recém descoberta habilidade telecinética.

Apesar do livro possuir o subtítulo A Estranha (somente na tradução nacional), Carrie nem de longe é o verdadeiro monstro dessa história. As verdadeiras criaturas da trama se revelam na forma de Margaret White, a fanática e manipuladora mãe de Carrie, e Chris Hargensen, a adolescente que enxerga Carrie como a sua ruína e perda de popularidade e regalias no colégio. Ambas causam repulsa e ódio no leitor, e não são nem um pouco diferentes em monstruosidade do que as aberrações que aparecem nas obras seguintes de Stephen King.

King pontua o texto com trechos de notícias e entrevistas sobre a tragédia na cidade fictícia de Chamberlain, dando a constante sensação de inquietude e pânico em quem está lendo. Afinal de contas, como uma história de intriga entre garotas sobre um baile de Primavera pode ser assustadora o bastante? Inserindo leves spoilers no texto revelando o destino de alguns personagens, o autor nos manipula a sentir o terror crescente nas páginas, e quando a dita morte ou fato acontece, não deixamos de ficar menos chocados pelo ocorrido.

Claro que não é um livro perfeito, afinal, era uma das primeiras obras de um jovem autor. Mas a capacidade de Carrie - A Estranha de assombrar quem está lendo não diminuiu nem um pouco mesmo 40 anos após a sua publicação. Stephen King mostrara a que veio, e se firmaria ainda mais como o Mestre do Terror em seu próximo livro, A Hora do Vampiro.



Sobre os filmes

1976:

O original permanece até hoje como um dos grandes filmes de terror do Cinema. Ele é repleto de cenas icônicas e a escalação acertadíssima de Sissy Spacek como Carrie. O filme captura muito bem o clima do livro, com as devidas adaptações. É um filme datado, infelizmente, e a trilha sonora que "homenageia" Psicose é horrível. A direção é de Brian de Palma, que confere um clima quase de pesadelo nas cenas envolvendo Carrie e sua mãe, interpretada de forma incrível por Piper Laurie, que veio a ser indicada ao Oscar por sua atuação.



2013:

A versão nova acerta ao retomar alguns elementos do livro que ficaram de fora do original. A direção de Kimberly Pierce acerta o erro do original em escalar atores muito mais velhos do que seus personagens, e também traz uma dupla inesquecível de protagonistas: Chloe Grace Moretz se entrega no papel de Carrie e Julianne Moore exagera de acordo no papel de sua mãe. O remake abusa um pouco do uso atual de tecnologia para uma trama que não necessitava desse tipo de adaptação e não consegue expressar o clima sinstro do enredo, mas é bem realizado o suficiente para garantir um lugar ao sol.

Existem ainda mais duas obras baseadas em Carrie - A Estranha. Uma é A Maldição de Carrie, que se propõe a analisar o que houve após os eventos do primeiro filme, trazendo uma das personagens do original. E a outra é um remake para a TV de 2002, mostrando Carrie descobrindo sobre outras pessoas com os mesmos poderes que ela, e sua vontade de ajudá-las. Ambas possuem ideias interessantes mas infelizmente não passam do medíocre =/.




Esse foi o primeiro de uma série de posts dedicados ao mestre Stephen King. Pretendo escrever sobre todos os livros lançados por ele no Brasil. A tarefa é árdua, mas reler os livros dele tem sido um prazer indiscutível!





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