Em 1968, Romero filmou e lançou A Noite dos Mortos Vivos, clássico absoluto do terror. Apresentou aos cinéfilos um novo tipo de horror; mais cru, sanguinário, pouco otimista e nem um pouco de bom gosto. O sucesso do filme se deve não apenas ao estilo realista e cruel do filme, mas também ao seu roteirista, John Russo. Hoje em dia, Russo e Romero não partilham uma das melhores relações, mas sua colaboração nos anos 60 moldou boa parte do terror no século XXI. Passados seis anos após o filme, Russo lançou o livro O Retorno dos Mortos Vivos, que seria a continuação do filme que realizou com Romero. Este, porém, decidiu seguir por uma outra abordagem, filmando os seminais Madrugada dos Mortos (refilmado por Zack Snyder em 2004) e Dia dos Mortos. John Russo, em 1994, lançou a versão novelizada de A Noite dos Mortos Vivos, e é este texto, juntamente com 'Retorno' que a editora Darkside Books lançou no primeiro semestre de 2014 em volume único contend 'Noite' e 'Retorno'. A primeira metade do volume se dedica a narrar os eventos do filme de 1968, enquanto a segunda parte traz a história inédita concebida como a sequência do original.
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| O cineasta George A. Romero |
O enredo de 'Noite' é sucinto: uma casa antiga na zona rural dos EUA se torna refúgio de um grupo improvável de pessoas que precisam se defender de uma horda de zumbis cujo único propósito é consumir carne humana fresca. Enquanto os personagens tentam dar sentido ao que está acontecendo e lidam com informações escassas, eles precisam se defender contra os mortos vivos e também uns dos outros, já que o instinto de sobrevivência normalmente traz o que existe de pior nas pessoas.
A novelização de John Russo para A Noite dos Mortos Vivos segue o roteiro do filme à risca. Os personagens são os mesmos do filme, com destaque para o protagonista Ben, que usa de inteligência e liderança para cuidar dos sobreviventes da casa. Apesar de ser uma trama que já foi narrada inúmeras vezes, cujos detalhes já conhecemos, é muito interessante como o roteirista conseguiu criar uma prosa tão angustiante e claustrofóbica quanto o filme que a inspirou. As páginas do livro são viradas em grande velocidade, já que Russo não perde tempo com verborragias desnecessárias, usando a simplicidade do enredo para criar um grande senso de urgência, que fica ainda pior com a tensão crescente entre os próprios personagens, que tentam assimilar todo o horror junto com o leitor. As descrições de John Russo para os zumbis e seus ataques aos humanos são devidamente sanguinários e nojentos, ficando difícil conter o asco em certas passagens do livro.
Para quem já viu o filme, não há surpresas: o desfecho sombrio e pessimista se manteve na prosa, e se existe alguma expansão no enredo do longa metragem, ela aparece na forma do xerife McClellan, que lidera os homens armados que tentam conter a ameaça zumbi nas fazendas onde a praga está mais grave. A leitura de A Noite dos Mortos Vivos é rápida como um tiro, e o horror ficará na mente até mesmo do leitor mais resistente.
A segunda metade do livro conta uma história que não foi narrada nos filmes e se passa dez anos após 'Noite'. Homens inescrupulosos aproveitaram-se da praga zumbi para espalhar suas próprias mensagens de ódio e intolerância religiosa. O foco da segunda parte fica na família Miller, composta pelo patriarca sádico Bert, e suas filhas Ann, Sue Ellen, e Karen, que está esperando um bebê. Os zumbis continuam a vagar pela zona rural dos States, e o caminho dos mortos vivos se cruza com o da família Miller. Mas enquanto os zumbis são uma visível ameaça, dessa vez alguns humanos provam ser tão monstruosos quanto os comedores de carne humana.
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| John Russo |
Apesar de conter vários zumbis e cenas gráficas envolvendo mutilações e descrições vívidas das mais variadas nojeiras, os verdadeiros vilões de 'Retorno' são os próprios humanos, deixando os zumbis um pouco de escanteio. 'Retorno' tem bons momentos de terror e tensão, principalmente quando as garotas Miller estão envolvidas, mas não é uma experiência tão assustadora quanto a primeira metade do livro. Vale a pena pela curiosidade, e também por ser um baita terror bem escrito.
A Darkside Books despontou como uma das editoras mais legais de se acompanhar nos últimos tempos. Dedicando-se inteiramente ao terror e à fantasia, o trabalho da editora em 'A Noite dos Mortos-Vivos' transporta o leitor direto para o clima do livro com as imagens dispostas entre as duas partes, e a constante aparição do selo de 'Rated-R', que a classificação máxima para um filme nos EUA, deixando bem claro que não é um livro para os fracos de coração.
Leitura recomendadíssima aos fãs de um bom terror, e àqueles que não gostam muito de dormir de noite.
PS: O filme original caiu em domínio público, então o clássico pode ser achado até no YouTube. Pra você não ter que procurar, tá aqui ele, em versão legendada. Tenha sonhos assustadores!




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