terça-feira, 8 de julho de 2014

A Noite dos Mortos Vivos, de John Russo


A essa altura do campeonato, falar da importância de George A. Romero para o terror já se tornou chover no molhado. Sozinho, ele criou todo o sub-gênero de 'zumbi'. Ou seja, meu amigo, se hoje você curte assistir Walking Dead ou jogar Resident Evil, saiba que você deve sua diversão a esse homem que hoje tem cara de senhor respeitável.

Em 1968, Romero filmou e lançou A Noite dos Mortos Vivos, clássico absoluto do terror. Apresentou aos cinéfilos um novo tipo de horror; mais cru, sanguinário, pouco otimista e nem um pouco de bom gosto. O sucesso do filme se deve não apenas ao estilo realista e cruel do filme, mas também ao seu roteirista, John Russo. Hoje em dia, Russo e Romero não partilham uma das melhores relações, mas sua colaboração nos anos 60 moldou boa parte do terror no século XXI. Passados seis anos após o filme, Russo lançou o livro O Retorno dos Mortos Vivos, que seria a continuação do filme que realizou com Romero. Este, porém, decidiu seguir por uma outra abordagem, filmando os seminais Madrugada dos Mortos (refilmado por Zack Snyder em 2004) e Dia dos Mortos. John Russo, em 1994, lançou a versão novelizada de A Noite dos Mortos Vivos, e é este texto, juntamente com 'Retorno' que a editora Darkside Books lançou no primeiro semestre de 2014 em volume único contend 'Noite' e 'Retorno'. A primeira metade do volume se dedica a narrar os eventos do filme de 1968, enquanto a segunda parte traz a história inédita concebida como a sequência do original.





O cineasta George A. Romero

O enredo de 'Noite' é sucinto: uma casa antiga na zona rural dos EUA se torna refúgio de um grupo improvável de pessoas que precisam se defender de uma horda de zumbis cujo único propósito é consumir carne humana fresca. Enquanto os personagens tentam dar sentido ao que está acontecendo e lidam com informações escassas, eles precisam se defender contra os mortos vivos e também uns dos outros, já que o instinto de sobrevivência normalmente traz o que existe de pior nas pessoas.

A novelização de John Russo para A Noite dos Mortos Vivos segue o roteiro do filme à risca. Os personagens são os mesmos do filme, com destaque para o protagonista Ben, que usa de inteligência e liderança para cuidar dos sobreviventes da casa. Apesar de ser uma trama que já foi narrada inúmeras vezes, cujos detalhes já conhecemos, é muito interessante como o roteirista conseguiu criar uma prosa tão angustiante e claustrofóbica quanto o filme que a inspirou. As páginas do livro são viradas em grande velocidade, já que Russo não perde tempo com verborragias desnecessárias, usando a simplicidade do enredo para criar um grande senso de urgência, que fica ainda pior com a tensão crescente entre os próprios personagens, que tentam assimilar todo o horror junto com o leitor. As descrições de John Russo para os zumbis e seus ataques aos humanos são devidamente sanguinários e nojentos, ficando difícil conter o asco em certas passagens do livro.



Para quem já viu o filme, não há surpresas: o desfecho sombrio e pessimista se manteve na prosa, e se existe alguma expansão no enredo do longa metragem, ela aparece na forma do xerife McClellan, que lidera os homens armados que tentam conter a ameaça zumbi nas fazendas onde a praga está mais grave. A leitura de A Noite dos Mortos Vivos é rápida como um tiro, e o horror ficará na mente até mesmo do leitor mais resistente.

A segunda metade do livro conta uma história que não foi narrada nos filmes e se passa dez anos após 'Noite'. Homens inescrupulosos aproveitaram-se da praga zumbi para espalhar suas próprias mensagens de ódio e intolerância religiosa. O foco da segunda parte fica na família Miller, composta pelo patriarca sádico Bert, e suas filhas Ann, Sue Ellen, e Karen, que está esperando um bebê. Os zumbis continuam a vagar pela zona rural dos States, e o caminho dos mortos vivos se cruza com o da família Miller. Mas enquanto os zumbis são uma visível ameaça, dessa vez alguns humanos provam ser tão monstruosos quanto os comedores de carne humana.

John Russo

Apesar de conter vários zumbis e cenas gráficas envolvendo mutilações e descrições vívidas das mais variadas nojeiras, os verdadeiros vilões de 'Retorno' são os próprios humanos, deixando os zumbis um pouco de escanteio. 'Retorno' tem bons momentos de terror e tensão, principalmente quando as garotas Miller estão envolvidas, mas não é uma experiência tão assustadora quanto a primeira metade do livro. Vale a pena pela curiosidade, e também por ser um baita terror bem escrito.

A Darkside Books despontou como uma das editoras mais legais de se acompanhar nos últimos tempos. Dedicando-se inteiramente ao terror e à fantasia, o trabalho da editora em 'A Noite dos Mortos-Vivos' transporta o leitor direto para o clima do livro com as imagens dispostas entre as duas partes, e a constante aparição do selo de 'Rated-R', que a classificação máxima para um filme nos EUA, deixando bem claro que não é um livro para os fracos de coração.

Leitura recomendadíssima aos fãs de um bom terror, e àqueles que não gostam muito de dormir de noite.

PS: O filme original caiu em domínio público, então o clássico pode ser achado até no YouTube. Pra você não ter que procurar, tá aqui ele, em versão legendada. Tenha sonhos assustadores!






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